
O mundo
moderno tem uma mania muito peculiar de teorizar sobre tudo, fazendo com que
qualquer coisa da vida que não seja números, cifras, códigos e demais bobagens seja
descartada automaticamente. Falar da simplicidade, de pequenas atitudes
pessoais que podem transformar a realidade para melhor é sumariamente combatida
e, ao invés disso, colocam no lugar as teorias sociais, frias com relação ao
homem, idealizando-o sempre como “o trabalhador”, “o oprimido”, “o fraco”, “o
burguês” ou “o super-homem”. Ou seja, destruímos pequenos gestos e ações e substituímos
por ideologias impessoais que pensamos que irá mudar para melhor o mundo,
esquecendo do nosso coração, da nossa casa, da nossa rua, da nossa cidade.
Se for para
idealizar o homem e, de alguma forma, colocá-lo como o centro de nossas
atitudes, eu prefiro o homem comum, como bem disse Chesterton[1]
e que eu teimo em substituir para o termo “O pipoqueiro da esquina”. Qualquer
pessoa gosta de pipoca, desde criancinha somos levados pelos nossos avós ou
pais para comer pipoca com o vendedor, até os engravatados que andam com pressa
para ganhar dinheiro. Via de regra, esse sujeito me parece muito simpático,
humano, a sua carrocinha é completamente chamativa e às vezes com balões para
vender. O pipoqueiro conversa com todos na rua, entrega o saquinho de pipoca
para a criança e é membro atuante das praças de pequenas cidades. Um homem
comum, de pequenos gestos que deixam todos muito felizes.
Desde o início
de seu pontificado, eu observo os traços do homem ideal de Chesterton no Papa
Francisco. Primeiramente ele surpreendeu o mundo em pedir para todos orarem por
ele e logo no dia seguinte, foi entregar flores para a imagem da virgem
Santíssima e rezar o terço junto a ela: típica espiritualidade do homem
ordinário, do homem comum, do vendedor de pipoca. As pequenas atitudes do Papa
fizeram com que ele saísse do ordinário e se transformasse em um homem
extraordinário para a Igreja e para o mundo. Podem parecer contraditórias que as
ações de um homem comum possam gerar grandes frutos, mas em meio à decadência
do mundo moderno, onda há falta de gestos de amor e de simplicidade, ele
consegue ser uma voz no deserto.
Em
sua passagem pelo Brasil, desafiou a tudo e a todos, como um grande cavaleiro
destemido, que optou por continuar tendo a mesma personalidade humilde e
simples: escolheu um carro popular, deixou os vidros abertos, rezou novamente
ao lado da Virgem Aparecida, deu entrevistas em pé no avião, levou a sua
pequena bolsa com poucos itens e corrigiu seus bispos em muitíssimos aspectos,
como o pipoqueiro que repreende seus filhos quando chega em casa e vê que os
quartos estão desarrumados enquanto eles jogam seu videogame preferido.
Esses
pequenos gestos comoveram todo o mundo e muitos dos intelectuais começaram a taxá-lo
de populista, considerando ser uma tentativa de a Igreja Católica abafar os escândalos
de pedofilia e outras questões que estavam em evidência. Lembrou-me as diversas
vezes em que Jesus fazia milagres na cara dos fariseus, mas esses não conseguiam
ver. Ou seja, o homem ordinário, acaba se tornando extraordinário, em um mundo
cada vez mais esclerosado e neurótico. Acho que a figura do pipoqueiro da
esquina nunca foi tão temida, tão amada, tão perturbadora e tão iluminada, ao
ponto de deixar desconcertado um ateu dono de um jornal Italiano e conseguir
parar o mundo para rezar juntos pela paz na Síria e no mundo inteiro. Vida
longa ao Papa e a todos os homens ordinários que são extraordinários, incluindo
aí os pipoqueiros da esquina.
[1] Escritor
e pensador Inglês, nascido no século XIX e que confrontava diversos aspectos do
mundo moderno.
