quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O papa Francisco e o pipoqueiro da esquina


O mundo moderno tem uma mania muito peculiar de teorizar sobre tudo, fazendo com que qualquer coisa da vida que não seja números, cifras, códigos e demais bobagens seja descartada automaticamente. Falar da simplicidade, de pequenas atitudes pessoais que podem transformar a realidade para melhor é sumariamente combatida e, ao invés disso, colocam no lugar as teorias sociais, frias com relação ao homem, idealizando-o sempre como “o trabalhador”, “o oprimido”, “o fraco”, “o burguês” ou “o super-homem”. Ou seja, destruímos pequenos gestos e ações e substituímos por ideologias impessoais que pensamos que irá mudar para melhor o mundo, esquecendo do nosso coração, da nossa casa, da nossa rua, da nossa cidade.

Se for para idealizar o homem e, de alguma forma, colocá-lo como o centro de nossas atitudes, eu prefiro o homem comum, como bem disse Chesterton[1] e que eu teimo em substituir para o termo “O pipoqueiro da esquina”. Qualquer pessoa gosta de pipoca, desde criancinha somos levados pelos nossos avós ou pais para comer pipoca com o vendedor, até os engravatados que andam com pressa para ganhar dinheiro. Via de regra, esse sujeito me parece muito simpático, humano, a sua carrocinha é completamente chamativa e às vezes com balões para vender. O pipoqueiro conversa com todos na rua, entrega o saquinho de pipoca para a criança e é membro atuante das praças de pequenas cidades. Um homem comum, de pequenos gestos que deixam todos muito felizes.


Desde o início de seu pontificado, eu observo os traços do homem ideal de Chesterton no Papa Francisco. Primeiramente ele surpreendeu o mundo em pedir para todos orarem por ele e logo no dia seguinte, foi entregar flores para a imagem da virgem Santíssima e rezar o terço junto a ela: típica espiritualidade do homem ordinário, do homem comum, do vendedor de pipoca. As pequenas atitudes do Papa fizeram com que ele saísse do ordinário e se transformasse em um homem extraordinário para a Igreja e para o mundo. Podem parecer contraditórias que as ações de um homem comum possam gerar grandes frutos, mas em meio à decadência do mundo moderno, onda há falta de gestos de amor e de simplicidade, ele consegue ser uma voz no deserto.
               
  Em sua passagem pelo Brasil, desafiou a tudo e a todos, como um grande cavaleiro destemido, que optou por continuar tendo a mesma personalidade humilde e simples: escolheu um carro popular, deixou os vidros abertos, rezou novamente ao lado da Virgem Aparecida, deu entrevistas em pé no avião, levou a sua pequena bolsa com poucos itens e corrigiu seus bispos em muitíssimos aspectos, como o pipoqueiro que repreende seus filhos quando chega em casa e vê que os quartos estão desarrumados enquanto eles jogam seu videogame preferido.
               

Esses pequenos gestos comoveram todo o mundo e muitos dos intelectuais começaram a taxá-lo de populista, considerando ser uma tentativa de a Igreja Católica abafar os escândalos de pedofilia e outras questões que estavam em evidência. Lembrou-me as diversas vezes em que Jesus fazia milagres na cara dos fariseus, mas esses não conseguiam ver. Ou seja, o homem ordinário, acaba se tornando extraordinário, em um mundo cada vez mais esclerosado e neurótico. Acho que a figura do pipoqueiro da esquina nunca foi tão temida, tão amada, tão perturbadora e tão iluminada, ao ponto de deixar desconcertado um ateu dono de um jornal Italiano e conseguir parar o mundo para rezar juntos pela paz na Síria e no mundo inteiro. Vida longa ao Papa e a todos os homens ordinários que são extraordinários, incluindo aí os pipoqueiros da esquina.




[1] Escritor e pensador Inglês, nascido no século XIX e que confrontava diversos aspectos do mundo moderno.